Pagode fora de hora



O Dissonante de Veneza

O balanço dos canais de Veneza tem algo de etéreo, como se as águas não estivessem apenas refletindo os palácios de pedra, mas guardando, sob a superfície verde-esmeralda, segredos de épocas em que o tempo e a realidade costumavam andar de mãos dadas. Foi sob esse feitiço, naquele setembro de 2008, que nossa gôndola se desprendeu da margem.

Elizabeth, nossa guia, tinha um brilho nos olhos que ultrapassava a cordialidade profissional. Quando ela acomodou Marina e este humilde cantor de serestas no estofado aveludado da embarcação, algo estranho aconteceu: a névoa que pairava sobre a Praça de São Marcos pareceu subir, condensando-se em melodias que não vinham apenas dos instrumentos, mas do próprio ar.

O violinista não apenas tocava; o arco de sua rabeca parecia tecer fios de luz entre as janelas góticas das casas. E, quando comecei a entoar Volare, não foi apenas minha voz que ecoou. As estátuas de pedra dos anjos, fixadas nas fachadas antigas, vibraram em resposta. Al di là foi mais que uma música; foi uma passagem. Por um instante, as gôndolas ao redor não eram apenas barcos turísticos; eram estranhas criaturas oceânicas, prontas para navegar em direção a um sol que nunca se punha.

Foi quando a realidade — densa, ruidosa e perfeitamente brasileira — colidiu com aquele momento encantado.

Um gondoleiro vindo de outra curva não navegava; ele parecia vir a reboque de uma energia dissonante. Nela, o tal carioca irrompeu, não com um pedido musical, mas com um grito que rasgou o encantamento. O músico italiano, habituado aos séculos de árias líricas, empalideceu; ele tentava ajustar o acordeon para algo que lembrasse o tom, mas suas notas pareciam lutar contra o surdo que o compatriota tamborilava no casco de madeira.

Foi uma metamorfose caótica. Onde deveria haver um coro de gondoleiros, ouviu-se Zeca Pagodinho em uma dissonância que faria os canais tremerem. E não foi um erro de repertório comum; foi uma rachadura na realidade mágica que envolvia Veneza.

Os olhares de indignação não eram apenas dos turistas europeus; os próprios gárgulas das igrejas pareciam olhar para o pagodeiro com um desdém esculpido. Quando as vaias subiram, não eram humanas — eram como um lamento das marés.

O rapaz, desorientado, viu em mim — com meu sorriso ainda preso ao refrão de Volare — o culpado pelo mundo não ceder aos seus apelos percussivos. Ele gritou comigo como se eu fosse o regente daquela sinfonia de estranheza, apontando o dedo com uma fúria desproporcional. Eu era apenas um viajante com uma alma nostálgica, mas aos olhos dele, naquele cenário de sonho fragmentado, eu era o representante de uma tradição musical que ele pretendia, à força, desconstruir.

Quando o passeio dele terminou, com o seu grupo sendo retirado daquela bolha temporal por uma ordem divina — ou talvez pela mera autoridade local —, a calmaria retornou como se uma névoa densa fosse subitamente varrida.

Veneza, com seus canais, voltou a ser apenas Veneza. Marina apertou minha mão, ainda um tanto incrédula com o trovão musical que havia acabado de passar por nós.

Saímos de lá com o silêncio devolvendo aos prédios a sua glória histórica. Percebi então a lição mais profunda daquela tarde: Veneza pode aceitar todo tipo de turista, mas há momentos onde a música exige respeito à arquitetura invisível das coisas. Ali, naquele recorte de setembro, descobri que entre a seresta e o caos existe um tênue fio musical — e que, para sorte nossa, minha voz, por um breve instante, tinha se tornado a bússola que guiou a nossa gôndola para longe daquela confusão.

No fim, fui embora como o mesmo velho cantor, mas carregando comigo a certeza de que Veneza não é apenas uma cidade; é um espelho onde quem desafina o tom da alma, acaba inevitavelmente perdendo o prumo da viagem.



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