Paris 2011


Paris o luxo, a sofisticação e o frenesi

Paris, novembro de 2011. O ar era denso, impregnado com o perfume de castanhas assadas e o frio cortante que parecia sussurrar segredos históricos pelas ruas de pedra. Nosso grupo — eu, Marina e dois casais de mineiros cuja alegria era tão contagiante quanto o sotaque era acolhedor — parecia estar em uma corrida contra o próprio tempo. 

Tínhamos cumprido a liturgia dos turistas: o City Tour, o frenesi do trânsito parisiense e a grandiosidade, quase opressora, de Versalhes. Aliás, lembro-me de procurar incessantemente uma fotografia que capturasse a nossa segunda passagem por aquele complexo monumental. Em vão. Versalhes é uma fera impossível de domar por lentes amadoras; o Palácio, soberano, e os jardins, arquitetados com precisão cirúrgica por André Le Nôtre, devoram qualquer foco que não seja o deles próprios. Pensar que aquela obra, nascida do ego colossal de Luís XIV, consumiu 158 anos até ser considerada "concluída"... parecia algo saído de um tempo onde os homens acreditavam na imortalidade.

Mas em Paris, a imortalidade é apenas um estado de espírito. 

Ao voltarmos para o coração da cidade, meus pés pediam trégua. O Louvre, com suas galerias labirínticas e o peso de milênios de arte, havia exaurido minha última gota de disposição mundana. Pedi um tempo aos meus companheiros. Eles seguiram, rindo de alguma anedota mineira, e eu me acomodei em uma cadeira no saguão do museu, bem próximo ao restaurante.

O lugar tinha uma aura estranha, um silêncio suspenso entre as colunas. Pedi um café expresso. Simples. Negro como o betume, fumegante. Eu queria apenas sentir o calor da xícara em minhas mãos geladas. Marina, companheira fiel de jornadas, parou diante de mim com a câmera em riste. 

Foi nesse exato instante que Antônio, um dos amigos mineiros que decidira ficar para trás por um breve momento, parou e me lançou o desafio com aquele jeito inquiridor:

— Prá quem você tiraria o chapéu hoje, Adilson?

O silêncio do museu pareceu convergir para aquela pergunta. Removi lentamente meu chapéu-coco — peça que, para mim, era mais uma extensão da alma do que um acessório de vestuário — e senti o peso da minha própria pergunta, como se a resposta devesse ressoar nos séculos preservados ali dentro.

— Para o nosso guia — respondi, observando a fumaça do café dançar no ar. — Ele soube ler os mapas do meu desejo antes mesmo de mim. Trouxe-me ao Louvre, é verdade, mas deu-me algo melhor: o descanso no momento exato em que a alma começa a flutuar para fora do corpo. Um café puro, sem acompanhamentos, servido sob o teto da própria história.

Enquanto Marina capturava a cena — o movimento da mão, a leve curvatura do chapéu, o instante de paz — tive a estranha sensação de que o museu, à noite, não era um depósito de pedras e telas. Parecia um organismo vivo que, ao tirar-lhe o chapéu em gratidão, devolvia-lhe o sossego. 

Não havia fantasia mais fantástica que a realidade daquele expresso. Mas a jornada não terminava. Na manhã seguinte, cruzaríamos o Canal da Mancha. As águas escuras separando dois mundos, deixando para trás o barroco francês em direção à neblina inglesa, com a sensação de que, onde quer que fosse, nossa história continuaria a ser contada através de pequenas pausas entre as maravilhas do mundo.

Deseja que eu prepare este conto em formato de arquivo para download? Posso criar uma versão em PDF ou Word para você.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mundo de A a Z - Eslováquia

Mundo de A a Z - Hungria

De A ao Z uma viagem inesquecível - Mundo